A entrevistada desta
semana é Analista Judiciária do Tribunal Regional Federal da 4ª
Região - cargo de nível superior e de ingresso mediante concurso
público - função de Diretora de Secretaria da 1ª Vara
Federal de Brusque/SC desde 09/12/2005 quando a Unidade foi instalada
em Brusque - Tatiana Bissoni Vhoss, nascida em Brusque aos 06
de setembro de 1973; filha de Tarciso Bissoni e de Lenir Igneis
Bissoni; casada com Moser Vhoss desde 06/09/1999 -atualmente ele
ocupa o cargo de Juiz Federal da 1ª Vara Federal de Itajaí; dois
filhos: Guilherme Bissoni Vhoss, com 13 anos e Henrique Bissoni
Vhoss, com 8 anos. Esporte predileto: pratica corrida de aventura,
natação e yoga.
foto
Como
foi sua infância?
Minha
infância passou muito tranquila e divertida, no bairro Dom Joaquim,
em Brusque. Cresci ao lado da família, stricto sensu (meus pais e
irmão) e lato sensu (avós, tio e primos), no bairro Dom Joaquim.
Morávamos em frente ao colégio, onde completei o ensino fundamental
e na mesma rua da Igreja, a Paróquia Santa Catarina.
O lar
e a família são sempre a referências dos momentos felizes.
Minha
família materna - Fachini, morava do lado esquerdo da nossa casa e a
minha família paterna - Bissoni, do lado direito da nossa casa.
Assim, a convivência era diária.
A família sempre foi muito
religiosa e ativa na comunidade.
O que lembra com
carinho de sua infância
Lembro com muito carinho dos
amigos, vizinhos e primos, especialmente das brincadeiras na rua onde
morávamos. Era uma rua sem saída, que se transformava em
playground para brincadeiras com bicicleta, corridas, bolas de gude e
jogos de voleibol. Fechávamos a rua para atravessar a rede de vôlei.
Por vezes a bola caía em uma valeta e causava a comoção geral para
corrida de resgate antes de alcançar o rio Itajaí Mirim, que passa
nas proximidades.
Passei muito tempo em cima das árvores, com
joelhos e cotovelos ralados, tantas eram as peraltices.
Gostava
muito da convivência na casa dos meus avós. Passei bastante tempo
com eles, quando meus pais viajavam a trabalho para todo o Brasil.
Muitas vezes minha mãe o acompanhava, para cuidar da sua alimentação
e da sua saúde. Nas férias escolares eu podia viajar com eles,
especialmente para o Mato Grosso, para onde grande parte da minha se
mudou na década de 1980, buscando desenvolver e ampliar o trabalho
na área de transportes e agronegócios.
O ponto alto das férias
escolares era passar os dias na praia, em Balneário Camboriú, onde
meu avô Vicente Bissoni sempre manteve alguma propriedade. Nessa
época, não havia tantos edifícios e o mar era cristalino.
Como foi sua
juventude?
Ingressei no mercado de trabalho aos 18 anos, na
mesma época do início da graduação. E o trabalho passou a me
gratificar com excelentes possibilidades de aplicação de tudo o que
vinha estudando teoricamente na universidade. O primeiro trabalho foi
na Companhia Industrial Schlosser, em seguida na Tecelagem Atlântica
e grupo Botuverá - empresa da famílila Bissoni. Também no Fórum da
Comarca de Brusque, na assessoria da 2ª Vara Cível. Exerci a
advocacia por ano e em seguida ingressei por concurso na Justiça do
Trabalho, onde trabalhei por 3 meses na 3ª Vara do Trabalho de
Blumenau. Com a inauguração das novas Unidades da Justiça Federal
em Blumenau, entrei em exercício pelo concurso da Justiça Federal,
onde permaneço até os dias de hoje.
De tal modo, minha
juventude foi pautada por muitos estudos e trabalho. Um pouco de
diversão também, certamente. Frequentava as animadas tardes
dançantes que aconteciam aos domingos a tarde, no salão da paróquia
Santa Catarina, com as famosas Banda S/A, Incandecentes e 4ª
Redenção, mas sempre com horário designado para voltar para casa,
18h ou 19h. Mais tarde, com a maioridade, com a CNH e um pouco mais
de independência evoluímos para buscar um pouco de diversão em
Balneário Camboriú, no divertido e bacana Baturité, o antigo.
Como conheceu o esposo?
Conheci o Moser no
início da faculdade, quando íamos de ônibus da empresa Geneve
Turismo para a Itajaí. Cursávamos Direito na UNIVALI, ele no quinto
período e eu no terceiro. Iniciamos o namoro em 1993 e não
paramos mais...até o casamento em 1999, após o término dos
estudos.
Histórico
escolar ?
Fui
muito dedicada e estudiosa.
Estudei inicialmente no Jardim de
infância Tia Trude, desde a sua instalação.
Em seguida, no
Colégio Estadual Monsenhor Gregório Locks, concluí o ensino
fundamental.
No Colégio Cônsul Carlos Renaux, frequentei a
primeira e segunda séries do ensino médio, concluindo-o no Colégio
Geração, em Florianópolis, cursando o terceirão.
Graduei-me
em Direito, na Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI, em
Itajaí.
Especializei-me em Direito do trabalho na FURB, em
Blumenau e em Direito Processual Cível pela Escola da Magistratura
Estadual de Santa Catarina - Esmesc.
Recentemente tive a
oportunidade de concluir o Mestrado em Ciência Jurídica, na
Univali.
Participei de muitos cursos e congressos na área
jurídica- curriculum completo pode ser visualizado na plataforma
lattes.
Foram muitas conquistas ao longo dessa jornada, porém a
mais recente está no lançamento próximo da obra Controle
Judicial sobre as Promessas da Constituição, de minha autoria e
produção da Editora Appris, de Curitiba.
Quais matérias
mais gostava/? Quais detestava?
Gostava de biologia, nunca
gostei muito de matemática, porém adoro literatura, história,
filosofia e direito.
Primeiro/a
professor/a?
Primeira professora foi Dona Olga Marcolla
Wisbeck, no primeiro ano no Colégio Estadual Monsenhor Gregório
Locks. Era uma professora tão amada que lideramos um movimento para
que ela continuasse conosco no segundo ano. E o resultado foi
positivo.
Grandes
professores?
Foram
muitos, muitos.
Mas
os faço representar pelos meus maiores professores da escola da
vida, pelos seus ensinamentos de valor, ética, fé, persistência,
humanidade e generosidade - Tarciso Bissoni, meu pai e Lenir Igneis
Bissoni, minha mãe.
Quais os melhores
livros que leu?
Jan Paul Sartre - Os caminhos da
liberdade
Thomas Hobbes - Utopia
Fiódor Dostoivéski -
Crime e castigo
Frans Kafka - O processo
Meu pé de laranja
Lima - José Mauro de Vasconcelos
A morte é um dia que vale a
pena viver - Ana Claudia Quintana Arantes
Dom Casmurro - Machado
de Assis
E muitos outros...
Não consigo parar de
relembrar de tantos obras maravilhosas, também na área jurídica,
como:
Montesquieu - O Espírito das Leis
Rui Barbosa -
Oração aos moços
Norberto Bobbio - A era dos Direitos
Ronaldo
Dworking - Levandos os Direitos a Sério
Luis Roberto Barroso -
Temas de Direito Constitucional
Antonie Garapon - O Guardador de
Promessas
Konrad Hesse - A força normativa da
Constituição
Jurges Habermas - Direito e Democracia: entre
facticidade e validade
Moser Vhoss - Dano Moral e Improbidade
Administrativa
O que está lendo
atualmente?
Tenho o hábito de ter várias leituras em
andamento, de modo que os atuais são:
Boaventura de Sousa
Santos- A crítica da razão indolente. Contra o desperdício
da experiência
Verde Vale - Urda A. Klueger
Imortais -
Tecedendo História
Ernest Hemingway - O sol também se
levanta
Fábio Vuolo - Um giono in piú
Adélia Prado -
Bagagem
Como
surgiu a Justiça Federal em sua trajetória?
Prestei
concurso para a Justiça Federal em 1998 para o cargo de analista
judiciária, nível superior.
Inicialmente exerci a função
de Oficial de Gabinete em Blumenau, para onde viajava todos os dias
durante 3 anos e seis meses.
A partir de 2002, iniciei o
exercício da função de Diretora de Secretaria de Vara Federal,
inicialmente em Joaçaba e depois em Brusque, com a instalação da
1ª Vara Federal de Brusque, em 09/12/2005.
É uma função
muito importante sob o ponto de vista da sua competência para a
gestão de processos que possibilita alcançar o
cumprimento de metas e prazos processuais, observando sempre e
principalmente todos os princípios constitucionais e legais.
Umas
palavrinhas sobre:
Tarciso
Bissoni, meu pai.
Com
olhar sempre empático para ajudar o próximo, trabalhador e honesto,
sua generosidade e sabedoria não cabem em si.
Filho primogênito
de Vicente Bissoni, iniciou o trabalho muito cedo, na agricultura
familiar.
Muito inteligente e visionário, trabalhou com
caminhões, inicialmente com o caminhão do pai, em seguida com os
seus próprios, sozinho ou com o auxílio de motoristas
empregados. No ano de 1975, fundou a empresa Transportadora Bissoni
Ltda, juntamente com seus dois irmãos Vilymar e Glomir. Muito
peculiar foi a fundação da empresa e essa parte da história que
pode ser encontrada no livro Posso dizer que andei.
A empresa
cresceu. Mudou sua sede para o município de Rondonópolis, Mato
Grosso, compondo atualmente o grupo Botuverá.
Tarciso sempre
residiu e reside no município de Brusque, com sua esposa Lenir
Igneis Bissoni, e seus dois filhos Tatiana e Vicente Neto. Atualmente
possui três netos, Guilherme e Henrique, filhos de Tatiana e Moser e
Alice, filha de Vicente Neto e Eliana.
Avós
paternos
Vicente
Bissoni, meu avô paterno.
Casado
com Juvita Bissoni, tiveram sete filhos vivos.
Vicente partiu no
ano 2003, mas nos deixou muitos legados. Sempre foi muito ativo e
dinâmico e ao longo de sua jornada colecionou realizações. A maior
delas foi o amor à família e a união dos filhos em netos em torno
de sua mesa. Na sua casa nunca faltou apoio, alegria, música -
quando ele tocava a sanfona - cerveja kaiser e vinho suave,
pois se fosse seco ele acrescentaria açúcar.
Foi
proprietário de um sítio forte na localidade de Ribeirão do Ouro,
município de Botuverá, onde cultivava o fumo, além da agricultura
de subsistência, em reguime de economia familiar. Com o crescimento
da produção de fumo na região, na década de 1950, ingressou na
Companhia Souza Cruz para ser instrutor de lavoura de fumo. Foi muito
respeitado na comunidade, como líder.
Decidiu mudar-se para
cidade de Brusque, no bairro Dom Joaquim quando visualizou que a
propriedade que possuía
em Botuverá seria pequena demais para abrigar todos os sete filhos e
lhes proporcionar estudo e trabalho digno e promissor.
Recomendo
muito a leitura do livro Posso Dizer que Andei, que descreve muitas
das suas aventuras.
fale
sobre seus avôs maternos
Avó maternos - Vicente Fachini e Ida
Zenlinda Fachini.
Descentes
de Italianos, moravam em Botuverá, depois em Dom Joaquim, em frente
a minha casa de infância. Vicente era motorista de caminhão, e
nessa profissão alcançou a aposentadoria. Sua propriedade em Dom
Joaquim era satisfatória, o que facilitou o cultivo de muitos
produtos para subsistência da sua grande família de sete filhos. O
cuidado dos filhos, da casa e da agricultura ficava ao encargo
da matriarca, Ida, com o auxílio dos filhos que já cresciam.
Dona
Dida, como era conhecida em Dom Joaquim, nos deixou muito cedo. Aos
65 anos de idade, não acordou de uma despretenciosa noite de sábado,
quando deitou após ter participado da tradicional missa.
Vicente
Fachini viveu bem mais, até o alzeihmer lhe alcançar, em
2012.
Cinco dos filhos vivem na mesma localidade. Uma filha
reside atualmente na Itália, desde quando partiu em busca do resgate
histórico de nosso antepassado Celeste Fachin, que nos estendeu a
sua cidadania italiana.
E a filha caçula reside em Concórdia,
Santa Catarina, onde trabalha no tabelionato de notas e protestos de
titularidade de seu esposo.
o
que poderia dizer sobre os bisavôs?
Netos de imigrantes
italianos que viveram em um tempo de muitas dificuldades. As famílias
foram numerosas e o trabalho árduo para superar as necessidades e
progredir, garantindo aos descendentes vida digna e segura.
Viveram
do comércio, do transporte, da agricultura. O trabalho, a
generosidade, a fé, a humanidade e a vida em comunidade, fizeram com
que essas família superassem todos os entraves daquele tempo.
Tive
a oportunidade de conhecer apenas a minha bisavó paterna, Maria
Comandolli, mãe de minha avó Juvita Bissoni. Nona Comandolli viveu
até o ano de 1992, quando faleceu aos 92 anos de idade.
A casa
onde ela viveu e morreu, no bairro Dom Joaquim, atualmente
funciona o comércio de alimentos de seu neto João César Comandolli
e demonstra a arquitetura da época.
Sobre a propriedade
incide discussão acerca da viabilidade de seu tombamento, pelo valor
histórico, cultural, arquitetônico e ambiental para a
população, no intuito de impedir que venha a ser destruído ou
descaracterizado.
Como
você resumiria a pegada para a publicação de “POSSO DIZER QUE
ANDEI – A História da Família Bissoni” ? Houve muitas
dificuldades?
Foi um trabalho que fluiu muito facilmente a
partir da concretização da ideia de resgatar e registrar os fatos
históricos da família desde a Itália.
Foram dois anos
de pesquisas, viagens, entrevistas, edições e muitas emoções.
Reviver o passado e imaginar as dificuldades trilhadas por nossos
antepassados, imigrantes italianos, que partiram tão jovens da
sua terra natal com destino a colônia Itajahy - príncipe Dom Pedro,
foi bastante intenso.
A sua chegada na nova terra para construir
as suas casas no interior da mata, na margem do rio, onde a presença
dos indígenas era constante, foi assustador.
Mas a pesquisa
seguiu, de geração em geração, até os descendentes em sexto
grau, que são os meus filhos.
Todos os desafios enfrentados por
cada núcleo familiar, não apenas a viagem - sem volta - da Itália
para o Brasil, mas também a mudança de Botuverá para Brusque e de
Brusque para Rondonópolis, no Mato Grosso.
A obra narra a
história de uma família que não abandonou na estrada a fé, a
persistência, o trabalho honesto e a gratidão a todas as pessoas
que estiveram presentes em suas vidas.
Como surgiu
“POSSO DIZER QUE ANDEI - A História da Família Bissoni”?
Surgiu
com a ideia e o interesse do meu pai, Tarciso Bissoni, de resgatar e
preservar a história dos nossos antepassados.
Tarciso
manifestava a preocupação real de estarem passando as gerações
que detinham o conhecimento da historia. Que chegaria o dia em que
ninguém mais teria lembranças para contar às gerações
futuras.
Com o auxílio e experiência do Saulo Adami, pudemos
andar mais longe e voltar ao tempo da imigração do nosso ascendente
mais antigo, Cesare Bissoni, que aos 19 anos de idade, emigrou da
Italia para Brasil - era o ano de 1878...
Como lembraram de
Saulo Adami?
Entrei em contato com o Saulo por já conhecer
o seu trabalho e obras publicadas.
Nos reunimos e facilmente nos
envolvemos e nos engendramos no projeto. Logo as entrevistas e
viagens iniciaram-se. A pesquisa foi tomando forma e ganhando volume.
Foi um belo trabalho que fluiu levemente pela sua competência e
conhecimento.